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De par em par

 

Juan Simarro Fernández

Ao que não tem lhe será tirado

E se escandalizavam dEle (VI)

 
Ao que não tem lhe será tirado
 
Esta afirmação de Jesus “ao que não tem lhe será tirado”, não deixa de ser um pouco escandalosa. O que se pode tirar ao que não tem?

01 DE NOVEMBRO DE 2011

 A expressão de Jesus de que “ao que não tem, ainda o que tem lhe será tirado”, aparece em muitos diferentes contextos nos Evangelhos. É um acerto difícil, que volta continuamente . Por tanto, não há dúvida de que é uma expressão que disse Jesus várias vezes ao longo do seu ministério. É que, acaso, estaria Jesus na lógica desumana de um capitalismo selvagem que aumenta a brecha aberta entre ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres? Jesus não estava na linha do que hoje seria um neo-liberalismo capitalista escandaloso, desumano, que mantém estruturas socio econômicas que marginaliza aos fracos do mundo. Jesus não era o profeta dos acumuladores do mundo, dos desequilibrios e repartições desiguais que fazem que reine a injustiça na terra.



Deve haver outras razões para que Jesus dissese isso em diferentes contextos. Se refere aos que enterran seus talentos, suas responsabilidades de cara ao próximo. Se refere aos que colocam embaixo da terra, bem guardado o talento que Deus lhes deu... e não atuam com ele, não o trabalham, não ajudam nem apoiam que só podem ver a seu próprio umbigo.



 Onde enterramos, as vezes, nosso talento e não o colocamos a trabalhar, a atuar em um mundo injusto?  Muitas vezes o enterramos debaixo véus religiosos que nos deixam a experiência de uma espiritualidade cristã desanimada, raquítica, descafeinada, cômoda... espiritualidade de cumprimentos dos rituais religiosos, de festas e preceitos, de sacristias e de púlpitos de costas ao sofrimento dos feridos e marginalizados do mundo. Enterramos nossos talentos na vivência de uma espiritualidade cristã pobre, de ritual, de vela e de cumprimentos religiosos vãos e desanimados.



Para muitos cristãos os valores do Reino, valores que trazem ao primeiro plano aos últimos, valores que dignificam aos fracos, que buscam justiça e o uso da misericórdia, podem estar enterrados debaixo de formas de viver a vida cristã de costas à dor do próximo sofredor.



É a estes, aos que enterran seus valores, seus dons, seus talentos, debaixo a laje da prática do ritual cômodo e desanimado, aos que Deus vai tirar ainda o pouco que possam ter. Não ter nada, porque o tem enterrado, mas ainda o pouco que tem enterrado se vai tirar... por inátivos, desanimados, passivos, presas do pecado de omissão da ajuda, de costas ao próximo que geme e grita esperando libertação.



 No se está louvando aos que seguram o capital e fazem produzir egoístamente sem compartir, tirando aos pobres o pouco que tem. Não se está louvando a riqueza como prestígio. Isso está nas antípodas do pensamento e ensinamentos de Jesus. O que se está fazendo nesta parábola, é colocar ao descoberto aos falsos religiosos que, inclusive fazendo cilício e cinzas, oprimem a seus trabalhadores e colocam sobre suas mesas a escassez destes, a escassez de tantos empobrecidos da História. Não é Deus, precisamente, quem tira aos pobres o pouco que tem. 



Deus é o que tira aos passivos e desanimados, aos que enterram os talentos que tem que trabalhar devendo ser as mãos e os pés do Senhor em um mundo de dor, aos que enterram o que outros necessitam em fundos escuros e improdutivos para a solidariedade humana, as misérias que foram acumuladas, ainda que a eles pareçam tesouros que tem que esconder, guardar e armazenar... talvez pelo medo de compartir.



Os que realmente tem são aqueles que, em humildade e em serviço, colocam seus talentos a trabalhar na libertação dos oprimidos pelo pecado ou pelas injustiças humanas, pela pobreza e roubos da dignidade.



 A parábola deve ser tomada como um desafio aos cristãos para que busquem a autêntica riqueza , não no enterro ou guardando em armazéns ou contas correntes, e sim em fazer, em servir, em colocar à disposição de Deus e de nosso próximo necessitado tudo o que somos e tudo o que temos, nossas forças, nosso tempo, nossas ilusões. Não colocar nunca nossa atenção em tesouros que a mariposa e a ferrugem podem corromper, e sim nos tesouros de viver uma vida ativa e solidária, uma vida atenta ao conceito de proximidade que nos deixa Jesus.



 Também a parábola é uma chamada aos religiosos que se consideram justificados e vivem a espiritualidade cristã de forma cômoda e sem compromissos . É a chamada de atenção diante as falsas seguridades, o falso descanso no ritual para não sentir-se desafiados pelas problemáticas do mundo, os que buscam a vida retirada de auto-contemplação nada solidária. Estes enterram seus talentos, mas inclusive os que tem enterrado será tirado, porque o que acumularam em suas vidas é a omissão e a irresponsabilidade. A parábola denuncía as falsas seguranças.



Senhor, não nos dê auto-suficiência, tranquilidade, nem comodidades que nos adormeçam. Dá-nos a ilusão do compromisso, do gastar na ajuda aos outros. Só assim iremos acumulando e aumentando os autênticos fluxos que nem a urina, nem a mariposa, nem nenhuma outra coisa podem corromper.
 

Autores: Juan Simarro Fernández

©Protestante Digital 2012

 
 



 

 

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