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De par em par

 

Juan Simarro Fernández

Cristãos sonsos, igrejas sem luz

E se escandalizavam dEle (XIV)

 
Cristãos sonsos, igrejas sem luz
Não devemos converter o cristianismo em uma religião comoda que a ninguém incomoda em forma de desafio e de servíço, que a ninguém ofende nem questiona.

02 DE DEZEMBRO DE 2011

 Quando dou o título a esta reflexão como “Cristãos sonsos, igrejas sem luz”, tão pouco é meu propósito fazer uma crítica à igreja e ao povo cristão em geral, senão fazer uma reflexão sobre a vida sem sal que, às vezes, podemos levar, os crentes deixando ao mundo sem sabor, sem luz. 



Creio que a reflexão vale a pena. Espero que não vos escandalizeis nem das palabras de Jesus nem desta reflexão. Jesus nos teve que dizer:  “Vós sois o sal da terra; mas se o sal é insípido, com o que se salgará?”… Vós sois a luz do mundo… Não se acende uma luz e se põe debaixo de um celemín… para que vejam vossas boas obras…”.   Mateus 5:13-16 .



Em todo caso,  sem pretender nenhuma crítica que escandalize, seria uma crítica à vivência do cristianismo de forma não comprometida, light, sonsa, cômoda… irresponsável, para levar a uma reflexão em busca de um compromisso cheio de sabor, de luz, de força… de graça . Não devemos converter o cristianismo em uma religião cômoda que a ninguém desafia em forma de objetivo e de serviço, que a ninguém ofende nem questiona.



Quando não vivemos em profundidade e com coerência a proximidade, o serviço, o compromisso com o mundo, com os valores do reino e com o radical dos ensinamentos de Jesus, convertemos nossa vivência da espiritualidade cristã em algo insípido, inodoro, cheio de indiferença, irresponsávemente cômodo e sem compromisso… não tem sal, não tem luz. Nos convertemos em um grupo que tenta olhar ao céu o que nos olhamos a nós mesmos, porém um grupo ao que falta sal, temperos, picante… vida.



Quando isto é assim, nossa presença cristã no mundo, só serve para que nos pisem como algo vão e sem valor, que nos coloquem nos cestos de lixo porque perdemos todo princípio que nos motiva a vivência de uma vida cristã que dá sal e luz ao mundo.



 Assim, quando somos cristãos sonsos ou igrejas sem luz, podemos falar desde o presépio até a cruz, fazendo cômodos lugares para dormir ao olor dos animais ou das imágens do que chamamos um belém, ou para relaxar buscando gozos sem apoio nos braços da cruz. Tudo nos serve para cochilar e tentar viver gozos sem apoio que são vãos e que não servem para nada. Vapores papoulas de consciências.  Buscas de segurança que cheiram a insolidariedade e egoísmo pernicioso. Vapores religiosos que não nos comprometem, como nos pede a definição bíblica de religião, nem com os orfãos, nem com as viúvas, nem com nenhum outro coletivo sofredor do mundo.



É então quando temos caído na sonseria, no insípido, no não motivante nem libertador para o mundo. Estamos metidos debaixo do almud, do celemín, das quatro paredes da igreja sem que a luz e o sal cheguem ao mundo que nos necessita.



 Quando perdemos o contato com o mundo e nossa vivência do cristianismo trânsmite vazio e escuridão, temos perdido o contato com o Deus da vida , com o Deus que é luz e sal para o mundo. Temos perdido o reflexo que do divino deve existir nos seguidores de Jesus.



Quando não somos sal e luz, quando deixamos de fazer do cristianismo vida que espalhe sal e luz pelo mundo, é quando convertimos a vivência do espiritual em ritual, em doutrinas e tradições que não nos fazem caminhar pelo mundo como “vivos entre os mortos”, não andamos como vivos que vão salgando o mundo, vivos que são um estouro permanente de luz. Caminamos como cadáveres que perderam a essência da vida cristã, o sabor e a luminosidade. Somos corpos opacos que caminhamos pelo mundo diante da indiferença de todos.



 Quando não vamos espalhando sal e luz, já não somos testemunhas do Evangelho . Fazemos para nós mesmos um evangelho de auto-consumo que não nos desafia nem nos converte nas mãos e pés do Senhor que se movem no meio de um mundo de dor espalhando o sal e a luz que deve converter-se em consolo, a prática da misericórdia, a ação social cristã comprometida com os fracos do mundo, os estilos de vida e as prioridades na linha dos exemplos que nos deixou Jesus.



Quando vivemos um cristianismo inoperante que não espalhe nem o sal nem a luz que o mundo necessita, estamos convertendo nossa fé em algo obscuro, que não atúa, que não tem obras… as obras da fé, as obras do amor. É por isso que o texto conclui que devemos ser sal e luz para que se possam ver nossas boas obras, nossos feitos, nossos compromissos práticos de ajuda solidária aos sofredores do mundo: “Assim ilumine vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras, e glorifiquem a vosso pai que está nos céus”.



 Os cristãos que fogem do insípido, do sonso, do inoperante, não tem mais remédio que viver sua fé de forma que esta atue através do amor . O Apóstolo Paulo, que o vemos como o defensor da salvação por fé, e é certo, tem que nos dar esta frase que converte a fé em algo ativo, operativo, com obras, atuando através do amor… as obras da fé: O importante é “a fé que atúa pelo amor”. As obras que fazem que os cristãos possam ser sal e luz, um fermento de compromisso que pode libertar ao mundo, que pode mudá-lo, que pode chegar a todos seus cantos os valores do reino que são valores solidários, restauradores dos sofredores do mundo e que traz à luz a aqueles que foram obscuros até os últimos lugares de forma impiedosa.



É então quando já não vamos a buscar o lugar cômodo ou romântico do presépio, nem vamos a cochilar mais encolhidos nos braços da cruz.  Tanto o presépio como a cruz vão ser nossa força, o que nos impulsa a sair ao mundo para temperar com o sabor do sal e iluminar com a luz da vida . Quando olhamos com compromisso para o presépio ou para a cruz, é quando nos damos conta que nos resta um caminho estreito que recorrer seguindo ao mestre. É quando nos faremos testemunhas viventes e visíveis de Cristo, força divina humanizadora, libertadora, solidária… Se necessita mais sal, sal da terra e luz do mundo, para deixar de cochilar e que o mundo possa ver nossas boas obras… Se não, como vão glorificar a Deus?
 

Autores: Juan Simarro Fernández

©Protestante Digital 2012

 
 



 

 

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