Por Que??
Quem sou eu?
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Arão Tomé Guerreiro
09 DE FEVEREIRO DE 2012
Há pessoas cuja identidade reside na herança que têm porque são reis ou princesas. Para outros a sua identidade assenta na sua formação, e para algumas pessoas esta está na sua ocupação . Aquilo que fazem é aquilo que os identifica. Isto para mim parece um paradoxo! Nos tempos que correm há muitas pessoas a perder a sua ocupação. Há duas grandes razões pelas quais se estão a cortar muitas ocupações na nossa sociedade: o aumento da eficiência da economia e o desaparecimento de liquidez que por sua vez obriga ainda mais à eficiência da economia. Mas eu não quero entrar nesse assunto, quero focar-me no paradoxo que se está a tornar um problema sério à nossa volta. Se a identidade das pessoas está fundada na sua ocupação e se a sua ocupação desaparece, então a sua identidade também desaparece! Estamos perante uma enorme crise de identidade!!
Ter a identidade baseada no título académico ou na ocupação são sintomas do mesmo problema , a pessoa reconhece-se em algo externo, intangível e etéreo e não nela própria enquanto pessoa. Em Portugal há muitas pessoas que querem ser doutoras. É como se se graduassem da Universidade e fossem imediatamente doutores, tratam-se por doutores, os seus cargos aparentam ser mais elevados quando requerem que se trate a pessoa por Dr. Num país onde tenho muitos amigos, a Guatemala, existe o "culto" aos Licenciados. Usa-se o prefixo Lic. antes do nome e profissionalmente deixa-se de se tratar a pessoa pelo seu nome e em vez disso usa-se este título. Tal como em Portugal e em outros lugares do mundo, as pessoas tratam-se pelo titulo académico. Dos países com que lido, onde vi menos desta transferencia de identidade foi em Espanha. Mas se neste país a identidade não está tão associada ao título e à profissão, talvez esteja depositado sobre a classe social ou os bens possuídos.
Na minha inquietude e curiosidade permanente eu pergunto a razão disto acontecer. Sabemos que qualquer acção é realizada com base numa motivação inicial. Isto acontece até determinado ponto a partir do qual o gerador da acção deixa de ser uma motivação inicial mas sim a repetição. Por isso existem valores culturais e tradicionais, passaram a ser uma repetição cujo fundamento e razão de ser já nem se conhece. Eu gostava de saber o verdadeiro motivo que levou a este comportamento. Terá sido seguramente uma falta de identidade que mais tarde se enraizou na cultura e agora todos querem receber o tratamento de Doutor (ou Dr. porque mesmo não tendo feito um doutoramento quer ser um doutor em algo).
Se isso não tivesse efeitos, eu não me preocupava. Mas tem. Quando abri a conta num banco, alguém meteu o titulo de Dr nos meus dados pessoais. Cada vez que eu ligo para o banco, eu noto a diferença no atendimento que há até ao momento em que a pessoa acede aos meus dados. O tom de voz e a delicadeza com que me trata mudam de repente. Isso parece-me muito mal porque significa que se está a considerar que há clientes de 1ª e de 2ª (espero que não haja de outras categorias). Sim, o mercado é segmentado e a cada segmento deve ser oferecido aquilo que procura, mas chegar ao ponto de ter dois comportamentos distintos com um mesmo cliente é, no meu entender, uma falta de respeito. É uma falta de respeito para com as pessoas que usam o titulo Dr. porque o respeito que lhes têm é ao titulo. É uma falta de respeito aos outros porque se não têm o título apenas merecem um tratamento corriqueiro. Logo, é uma falta de respeito a todos! O respeito só existe às duas letras com um ponto depois (Dr.).
Passa-me pela cabeça um comparação um pouco disparatada, mas se calhar até é acertada. Algum psicólogo poderá comprová-la. Ivan Pavlov ganhou em 1904 um Prémio Nobel e teorizou aquilo que se chama de Condicionamento Clássico. Pavlov verificou que os cães com que trabalhava criavam respostas inconscientes a estímulos externos. Será que a transferência de identidade acontece pelas mesmas razões como os cães de Pavlov? Como entendemos que usar titulo dá proveitos, lá vai o titulo a todo o lado. Vai tanto que passa a fazer parte do nosso nome!
Eu pergunto onde está a humildade? Ser humilde não é ser pobre como se diz por aí. Ser humilde é ser consciente da verdade e viver com essa consciência. A verdade diz que eu sou a mesma pessoa com ou sem titulo, independentemente da ocupação ou da herança.
Se procuro nas raízes Cristãs da nossa sociedade, Cristo diz que sou um filho, um sacerdote e um rei. Ao mesmo tempo diz que não sou nada nesta terra. Sou pó. Aquilo que sou é porque Ele dá . Só confiando nele poso ser o que sou, porque ele assim o diz . Trata-se de dependência total! No entanto essa dependência não está em algo etéreo. Sim que é externo e podemos discutir se é intangível, mas de certeza que é concreto.
Nesse mesmo livro chamado Bíblia estão os escritos de um apóstolo chamado Paulo. Ele diz que não nos conformemos com os costumes do mundo mas que nos transformemos através da renovação das nossas mentes. Eu tive que encontrar esta situação no mundo para questioná-la e renovar a minha mente sobre ela.
Cheguei à conclusão que eu próprio às vezes me refugio atrás de um título que ocupava o cargo de meu apóstolo . No grego antigo a palavra apóstolo significava "o enviado". Isso é o que fazia, enviava o título à minha frente para abrir o caminho do respeito e consideração para que depois pudesse entrar eu como sendo a celebridade.
É tão fácil acomodar a este mundo! Até para que uma pessoa saiba quem é tem que renovar constantemente a sua mente….
E tu, sabes quem és?



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